
Caros leitores, ontem resolvi fazer uma busca em meu arquivo de revistas antigas, procurando alguma matéria que combinasse com a atual situação do mercado. Em pouco tempo porém, encontrei uma matéria perfeita para essa segunda feira.
Os fatos são tão atuais, que caso afirmasse que se tratava de uma matéria veiculada essa semana tenho certeza que vocês confirmariam.Vale a pena dar uma olhada na previsão feita abaixo pelo "mago do mercado" Armínio Fraga!
Essa matéria esta disponível na revista Exame nº 869, de 07 de junho de 2006, com o seguinte título: Mercado Financeiro - A FESTA ACABOU?
EXAME Uma das tarefas mais antipáticas dos economistas é lembrar ao restante das pessoas que não há almoço gratuito e que as festas, por melhores que sejam, sempre têm hora para acabar. A mensagem é que a humanidade, por mais que tente se libertar, ainda está submetida às oscilações naturais dos ciclos econômicos -- os períodos de euforia são inevitavelmente seguidos de momentos de desaceleração. O abalo sísmico ocorrido nos mercados financeiros globais nas últimas semanas serviu para lembrar aos investidores o velho ensinamento. Turbinadas por uma das mais prolongadas fases de crescimento econômico do pós-guerra, as bolsas do mundo todo experimentaram uma frenética evolução nos últimos quatro anos, multiplicando os ganhos financeiros e estimulando uma enorme gama de aplicações, algumas pouco recomendáveis.
| Um ciclo de euforia na economia mundial | |
| Nos últimos anos, o mundo viveu um período de crescimento alto, dinheiro abundante e exuberância no mercado financeiro | |
| Crescimento mundial (em %) | |
| 2001 | 2,6 |
| 2002 | 3,1 |
| 2003 | 4,1 |
| 2004 | 5,3 |
| 2005 | 4,8 |
| 2006 | 4,9 (1) |
| (1) Previsão Fonte: FMI | |
| Investimento nos Brics | |
| (recursos aplicados em: Brasil, Rússia, Índia e China, em bilhões de dólares) | |
| 1995 | 44 |
| 2005 | 108 |
| Fontes: Unctad, FMI e Tendências Consultoria | |
| Índice Bovespa (em pontos) | |
| Dez/2002 | 11 268 |
| Mai/2006 | 36 412 |
| Fonte: Economática | |
| “Vivemos um ciclo longo de liquidez elevada no mundo, provocado por juros muito baixos nos países centrais. Esse ciclo chegou ao fim.” Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central |
| “Historicamente, os ciclos econômicos sempre existiram. Acho extremamente arriscado querer acreditar que eles desapareceram.” José Alexandre Scheinkman, professor da Universidade Princeton |
| “O Brasil está mais forte: as contas externas estão sólidas, há certo ajuste fiscal. O nosso problema é a incapacidade de crescer.” Eduardo Giannetti, economista e professor do Ibmec |
A valorização dos ativos atingiu também o setor imobiliário -- os preços de casas e apartamentos em diferentes países subiram muito nesses tempos. Produtos primários como petróleo, ferro, cobre, ouro, soja, trigo, entre outros, registram cotações recordes nos mercados, o que gerou fonte inesperada de receita para um conjunto de nações, no qual se inclui o Brasil. Essa escalada nos mercados deu-se simultaneamente a uma atípica calmaria no mundo financeiro -- nesses tempos, as turbulências praticamente desapareceram do cenário. Parecia um mundo perfeito. Tal ambiente de euforia foi colocado em xeque no dia 17 de maio, quando a divulgação de um índice de inflação acima do previsto nos Estados Unidos levantou a suspeita de que os juros americanos terão de subir mais daqui em diante. A perspectiva de aperto monetário do Federal Reserve (Fed), o banco central americano, desencadeou uma onda de insegurança nos mercados, especialmente no mundo emergente. A bolsa brasileira caiu 9% em uma semana. Na Índia, o pregão teve de ser interrompido por 1 hora após registrar queda de 10%, o limite máximo permitido num único dia. Outros emergentes, como Rússia, Turquia, México e Argentina, também viveram dias de intensas perdas nas bolsas. Ainda é cedo para saber se a festa acabou -- talvez ela ainda dure alguns meses ou anos, afinal o ente chamado mercado costuma ter comportamento bipolar, oscilando entre a euforia e a depressão --, mas o fato é que essa perspectiva deixou de fazer parte de um cenário improvável e longínquo. "Os últimos anos foram um sonho, mas ele não dura para sempre", diz o economista Eduardo Giannetti, da escola de negócios Ibmec.
A situação acalmou-se um pouco nos dias seguintes, mas a percepção generalizada é que houve uma mudança sensível nos mercados. É impossível saber se o mergulho das últimas semanas representou apenas um soluço ou o início de uma tendência mais profunda -- por ora, a maioria das apostas é que o pior já passou. O que parece certo, no entanto, é que um ambiente de volatilidade voltou a dominar os mercados. "Acabou o céu de brigadeiro", diz Oswaldo de Assis, sócio do banco Pactual. "As nuvens voltaram, só não sabemos dizer se elas estão carregadas." Em outras palavras, o cenário da economia mundial tornou-se mais arriscado. Isso não quer dizer que o mundo caminhe para uma recessão. Ao contrário, a economia global está relativamente forte e as perspectivas são de mais um ano de crescimento econômico robusto (veja quadro na pág. 17). O ponto é que, daqui para a frente, os fluxos de dinheiro devem se tornar mais temperamentais e incertos. O cenário de maior incerteza ganhou um componente extra com a troca de guarda no Fed. O novo presidente, Ben Bernanke, ainda não conquistou o entusiasmo dos profissionais do mercado, saudosos da atuação de seu antecessor, Alan Greenspan. O crescente nervosismo no mercado se evidenciou na sexta-feira 26 de maio, quando o mundo das finanças globais literalmente parou para observar um novo índice de inflação americana -- que poderia confirmar ou não o cenário de alta nos juros do Fed. O número oficial foi de 0,24%, não muito distante do patamar de 0,3% que vinha sendo temido pelos analistas. "Bastaria um índice um pouquinho maior para produzir nova rodada de nervosismo", diz o economista Paulo Pereira Miguel, da Quest Investimentos. O número "um pouquinho maior" seria 0,26%. Não deixa de ser uma mostra da fragilidade atual dos mercados financeiros -- uma alteração insignificante num único indicador teria sido capaz de agitar as bolsas do mundo.
Como explicar a alteração em curso no cenário mundial? Uma resposta reside na própria natureza dos mercados, que tende a antecipar movimentos futuros, freqüentemente com certo exagero. Nos últimos anos, a explosão das bolsas mundo afora esteve ancorada em fatos econômicos concretos -- forte crescimento dos Estados Unidos e ascensão de vários países emergentes, particularmente a China. Mas, como sempre ocorre em momentos de maior euforia, alguns preços subiram muito acima do razoável. Foi o que se viu, por exemplo, em vários mercados imobiliários mundo afora. Conforme o humor começa a mudar, os investidores reavaliam o real valor dos ativos, jogando várias cotações para baixo. Comprar uma casa nos Estados Unidos, por exemplo, já está mais barato. O problema é que, assim como exageram na alta, os investidores tendem a replicar o mesmo movimento no sentido oposto. Boas aplicações são postas à venda na bacia das almas apenas para compensar prejuízos em outros mercados. Nessa hora, países emergentes como o Brasil acabam sofrendo mais -- pelo simples fato de possuir papéis com alta liquidez. "Será preciso passar o nervosismo para descobrir as aplicações que ainda vão continuar caindo e as que devem voltar a subir", diz o economista Mário Carvalho, do West LB Asset Management.
Contribui também para a mudança no humor dos investidores a percepção de que a economia mundial, apesar das boas projeções de crescimento, confronta-se agora com o desafio de desatar alguns nós fundamentais. O mais relevante deles diz respeito à saúde dos Estados Unidos, a locomotiva do mundo. Os americanos têm mantido uma combinação pouco recomendável na esfera econômica -- investimento produtivo baixo com consumo abundante. O excesso de gastos, especialmente do governo, resulta em desequilíbrio nas contas externas que já atinge a espantosa proporção de 6,4% do PIB. "Países com tamanho desequilíbrio geralmente passam por um ajuste que combina desvalorização da moeda com forte recessão", diz o economista José Alexandre Scheinkman, da Universidade Princeton. Foi o que se deu com quase todos os casos de nações que precisaram resolver uma situação semelhante -- a única exceção ocorreu com os próprios americanos, que conseguiram, nos anos 90, resolver a questão apenas com uma desaceleração branda. "Os Estados Unidos vão escapar, mais uma vez, de um ajuste doloroso? Ninguém sabe", diz Scheinkman. "O que dá para saber é que uma recessão forte por aqui acaba afetando o mundo todo."
Em meio a tais preocupações do mercado financeiro, o Brasil desempenha um papel coadjuvante -- para o bem e para o mal. Predomina o consenso de que o país está muito mais preparado hoje do que há alguns anos para enfrentar uma turbulência externa. "A exposição ao risco é atualmente muito menor", diz o economista Drausio Giacomelli, diretor para a América Latina do banco JP Morgan Chase, em Nova York. Mas isso não significa dizer que um desaquecimento global seria indolor. Se o crescimento lá fora perder o ímpeto, um efeito direto ocorrerá nas exportações brasileiras -- tanto em termos de volumes quanto de preços dos produtos. Como o Brasil ostenta um superávit comercial grande, não seria nenhuma catástrofe, mas alguns setores podem sentir um baque. Outro efeito possível se dá no fluxo de investimentos. Em momentos de maior nervosismo e menor crescimento, o capital torna-se arisco e os investidores tendem a escolher mercados maduros em detrimento de nações emergentes como o Brasil. Dependendo da intensidade, as turbulências podem até mesmo atrasar o almejado grau de investimento que o país persegue nas agências de avaliação de risco, uma espécie de certificação de que o Brasil oferece boa segurança aos investidores. "É improvável que o Brasil seja rebaixado, mas novas elevações da nota e o grau de investimento podem ser adiados", diz Rafael Guedes, diretor executivo da agência de classificação de risco Fitch Ratings.
Talvez o impacto mais marcante seja ver passar um momento raro da economia mundial. Em quase todas as partes do planeta é possível reconhecer sinais de pujança -- até mesmo nas economias européia e japonesa, há anos praticamente estagnadas. O crescimento floresce com especial ímpeto no mundo emergente, a taxas que neste ano devem alcançar a marca de 7%. China, Índia e outras nações têm aproveitado a fase de bonança para modernizar a economia. Enquanto tudo isso ocorre, o Brasil caminha vagarosamente. "Mesmo diante de um cenário tão espetacular, não conseguimos crescer para valer", diz Giannetti. Se isso já era verdade durante o auge da festa do mercado financeiro, a situação tende a piorar com a lembrança de que, afinal, um dia ela vai chegar ao fim.


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